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A maldade que eu penso sobre você

Eu penso que a gente poderia se encontrar qualquer dia, na esquina da rua da sua casa ou na fila da padaria. Eu poderia estar fotografando na praia e você me reconheceria de longe, daria um sorriso tímido e me mandaria um bilhete anônimo. Eu procuraria você nos olhares de cada homem-menino que ali estivesse. Você sabia que eu estaria lá, não é? Te mandaria uma mensagem de texto e pediria pra você vir falar comigo pessoalmente. Mas você só ia ficar observando meu jeito curioso e desesperado por querer te ver. Mais tarde, você chegaria de mansinho, como um desconhecido de outro estado, perguntando as horas ou meu nome, mas eu não reconheceria você. Ou  talvez reconhecesse seu olhar e suas mãos. É tudo o que já vi. Eu me sentiria uma boba, ficaria radiante de felicidade e te abraçaria forte por tempo indeterminado. Você gosta de abraços? Eu sim. Eu olharia nos seus olhos sem acreditar que seria você na minha frente, depois de tanto tempo. E eu vou segurar suas mãos. Numa noite qualqu...

Anonimato

Era algum mês de 2009. De tarde. Todos os dias, depois do almoço, ela tirava um cochilo bem rápido para aproveitar a Internet banda-larga recém instalada. Orkut era vício. LookBook também. Numa dessas comunidades bastante frequentadas eles se encontraram. Tinham outros tantos que não eram como ele, embora ela não soubesse como ele era. Eles e outros especulavam assuntos sem pé nem cabeça, que surgiam entre umas palavras e outras. Cada fórum era um amigo novo, uma conversa nova. Ela não sabia, ao certo, como essa amizade surgiu. Ela sempre teve medo de conversar com estranhos na Internet, mas sempre foi movida por essa vontade de conhecer pessoas de outros lugares, já que sempre esteve limitada a conhecer pessoas do próprio Estado; pior que isso: pessoas da mesma cidade. Além das matérias estampadas nos jornais – do desaparecimento da fulana que combinou de encontrar beltrano, que conheceu na Internet e nunca mais voltou pra casa – ela tinha namorado. Ele não gostava de Orkut. Não gost...

Pra tentar de novo

Por cada momento que foi nosso. Por cada palavra que eu deixei escapar no momento errado e por cada frase que eu falei, exageradamente, no momento certo. Por cada arranhão que eu dei em todos os centímetros das suas costas e dos seus braços. Por cada beijo que eu dei nas suas mãos, na sua nuca e no canto direito da sua boca. Por cada beijo que eu dei na sua boca. Por cada música que nós escutamos abraçados no jardim da minha casa olhando o céu ou na rede que fica na minha varanda, enquanto a chuva caía. Por cada lugar diferente que visitamos e por todos os lugares que costumávamos ir sempre, quase todos os fins de semana. Por cada flor e carta que você nunca me deu, mas que eu também não fazia muita questão de ter, porque eu tinha você e o chocolate do quiosque da outra rua. Por cada foto nossa grudada no meu espelho, na minha geladeira, no armário da escola e nos meus cadernos e agendas. Também pelo seu silêncio repentino, seguido de uma risada estrondosa; pelo seu jeito incon...

A Falsa Romântica

Ela falava sobre amor, escrevia sobre amor e ouvia canções de amor. Ela colecionava revistas onde pudesse recortar corações coloridos e dizeres apaixonantes, para grudá-los na parede do quarto, na agenda ou no guardarroupa. Ela assistia a filmes românticos e chorava sempre que via pedidos de casamento. Ela decorava poemas e criou uma página na Internet onde pudesse compartilhar seus pensamentos. Mas aquilo tudo era máscara. Ela não era nada daquilo. Nunca foi. Seus ex-namorados eram insatisfeitos, seus relacionamentos nunca davam certo. Ela não sabia agir com romantismo, diferente das personagens que ela inventava. Ela não sentia saudade, não gostava de ficar por perto, embora quisesse ficar por perto quando estava longe. Ela adulterava os artistas da TV, mesmo estando na minha frente, e desdenhava do homem que tinha em casa. Ela exigia amor e carinho, mas nunca fazia por merecer. Ela queria ser servida e gostava de homens aos pés dela. Ela ignorava meus agrados e se mostrava incom...

Eu não sou seu tipo

Eu não sou o tipo de garota que você procura. Eu sou morena, sou baixinha e uso um óculos detonado. Você gosta de loiras. Eu já tive uma experiência com lentes de contato, para que o óculos não ofuscasse essa cor clara dos meus olhos, mas não deu muito certo. É, eu tenho os olhos os claros, mas sou cega. Eu tenho preguiça de depilar as pernas e quando faço, você nunca repara. Eu tenho o vício de roer as unhas e dificilmente pinto as unhas dos pés, mas eu adoro o meu sapato vermelho de salto altíssimo, o que me deixa mais mulherzinha e me faz ficar um tanto poderosa. Eu não gosto de forró, mas te acompanho nessas festas sempre lotadas, com pessoas suadas e bêbadas. Eu também fico bêbada de vez em quando, porque eu descobri que beber de vez em quando até que pode ser divertido. A gente chega até dançar! Mas você não gosta do jeito como eu danço. Isso não me faz gostar de forró e muito menos do seu hip-hop ofensivo, que nem mesmo você sabe a tradução. As músicas que eu gosto são ridícu...

Censura

Está proibida qualquer forma de exibição do seu nome ou do seu rosto na minha vida e qualquer manifesto que mostre o quanto você exerce um poder involuntário sobre minhas decisões. Está expressamente proibido qualquer som que emita seu nome ou qualquer foto que me faça abrir um sorriso involuntário relacionado a você. Embora você me faça rir, sua existência provoca um mal à minha saúde emocional. Ver você passar me causa alergia e dor. Te ouvir sorrindo me causa alucinações sonoras à noite. Ainda não inventaram o remédio que me cure de você, é por isso que estou te proibindo, ou me proibindo de você, não sei. Qualquer pessoa que violar essa regra imposta pela minha cabeça doentia, estará sujeita à multa. Você se aproveita da minha ingenuidade para se camuflar de melhor amigo, faz propaganda de você mesmo e eu acabo abrindo uma ressalva. Eu volto atrás e torno a censurar o numero do seu telefone na minha agenda e sua música preferida tocando inesperadamente no rádio. Eu sou uma audiên...

A esperada declaração inesperada

Depois de abrir a caixa de e-mail e se deparar com a notícia que estava contratada para ingressar no emprego que esperava por quase dois anos, ela mal se conteve de tanta alegria. Contou a novidade aos amigos mais próximos e logo decidiu dar uma festa de despedida. Organizou cada detalhe, selecionando convidados e planejando o que comprar para beber, e, então, montou os convites e distribuiu no dia seguinte na faculdade, aos amigos da mesma rua e aos amigos da escola passada. - Eu tô nervosa. - Vai logo e entrega esse convite pra ele. - E se ele não for? - Claro que vai! Vocês são amigos, são colegas de classe. - (suspiro) Tá bom. - Age com naturalidade, como se estivesse convidando qualquer pessoa. - Esse é o problema: ele não é qualquer pessoa. - Tá, mas ele não sabe disso. - Me espera aqui. Se aproximou de mais um dos vários grupos que haviam na sala de aula dela, mas desta vez ele estava sozinho. - Oi. - Oi! (breve sorriso) - Ó, esse fim de semana tô organizando u...