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Anonimato

Era algum mês de 2009. De tarde. Todos os dias, depois do almoço, ela tirava um cochilo bem rápido para aproveitar a Internet banda-larga recém instalada. Orkut era vício. LookBook também. Numa dessas comunidades bastante frequentadas eles se encontraram. Tinham outros tantos que não eram como ele, embora ela não soubesse como ele era. Eles e outros especulavam assuntos sem pé nem cabeça, que surgiam entre umas palavras e outras. Cada fórum era um amigo novo, uma conversa nova. Ela não sabia, ao certo, como essa amizade surgiu. Ela sempre teve medo de conversar com estranhos na Internet, mas sempre foi movida por essa vontade de conhecer pessoas de outros lugares, já que sempre esteve limitada a conhecer pessoas do próprio Estado; pior que isso: pessoas da mesma cidade. Além das matérias estampadas nos jornais – do desaparecimento da fulana que combinou de encontrar beltrano, que conheceu na Internet e nunca mais voltou pra casa – ela tinha namorado. Ele não gostava de Orkut. Não gostava de Internet. Não gostava que ela conhecesse outras pessoas, muito menos se fossem homens. E ela, teimosa como sempre, se atrevia a conversar com aqueles, lá do outro lado da tela do computador, sabe-Deus de que lugar.

Ele e ela evoluíram para o MSN. Ela ligou a câmera. Ele não. A mãe dela ficava do lado pra saber com quem a menina conversava, sendo que nem a coitada sabia. Com a mãe do lado, ela sentia segurança, ainda que fosse um pouco incômodo. Ela mal sabia o nome do menino e o time que ele torcia, porque sua foto no perfil só mostrava isso. Mas qualquer um, no fundo, no fundo, sabe ou desconfia quando uma pessoa é suspeita. E ela nunca sentiu coisa ruim em relação a ele. Talvez o humor ácido - junto com os outros lá naquele fórum do Orkut -, a ironia e a falta de vontade em provar que ‘ah, eu sou legal, não tenham medo de mim’ tenham despertado a curiosidade dela. Eles se falavam todos os dias. Ou quase todos. Era época de Copa e a comunidade funcionava como uma válvula de escape quando o dia-a-dia ficava monótono. Passaram-se os dias, ela excluiu a conta do Orkut. Passaram-se meses e acabou perdendo contato com todos - e acabou o namoro também. Ela usava a conta da mãe, de vez em quando, para acessar a rede social, mas ninguém a reconhecia. Só ele. Ele não se esquecia dela.

Surgiu Twitter. Surgiu Facebook. Mas aquela comunidade do Orkut, de pessoas tão agradáveis (outras nem tanto) continuava na memória. Anos depois eles se reencontraram. No twitter. E evoluíram para o Facebook. Ela nunca viu o rosto dele, porque, QUATRO ANOS DEPOIS, ele ainda usa a mesma foto no perfil – agora chamado carinhosamente de avatar. E não sabe se vai ver um dia. Ele não mostra, ninguém sabe por quê. Ele brinca que vai buscá-la no aeroporto, segurando uma placa com o nome dela e um frio sobe pela espinha. Como ele deve ser? Que altura ele deve ter? Como é a voz dele? Eles se divertem conversando virtualmente e ela tem certeza que ele não é nenhum maníaco disfarçado. Ele mostrou a casa dele pra ela pela chamada de vídeo, mas nunca apareceu. Ele faz suspense e ela acaba gostando dessa amizade meio anônima.


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