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Ah que saudade que eu sinto de você. São quase duas da manhã e te escrevo com lágrimas nos olhos e um vinho barato me fazendo companhia. Você sabe que vinho nunca foi meu forte e eu ando fraca demais. Escolhi uma seleção de jazz que nunca tinha escutado antes, aliás, nunca parei para ouvir jazz na madrugada, nem mesmo quando você estava aqui e saía, batendo a porta, me virando as costas e me deixando falando sozinha no meio das nossas discussões. Minha cama também te chama. Meu corpo sente tua falta, a falta do calor do teu corpo e dos teus beijos. A maquiagem borrada não mostra nem metade do estrago que me consome por dentro. Teu cheiro ainda circula pelo corredor da casa. Não me atrevo a trocar os lençóis e, por descuido, lavar nossas lembranças enroladas nele. Ainda guardo tanta coisa boa de você! Teus vídeos cheios de sorrisos e canções e declarações. Teu canto desafinado e lindo. Tua barba cheia, passeando lentamente pelas minhas costas e rosto e pescoço. Tuas cartas ainda perfumadas, e nossas fotos – agora sem brilho. E eu nem sei se você ainda pensa em mim. Mas criei raízes na nossa historia e não arrisco cultivar sementes em outros livros, novas aventuras. Passo café todas as tardes na esperança de que você volte. Aprendi a fazer sua comida preferida. Tarde demais, eu sei, mas eu aprendi. Lembrei do quanto você insistia em dizer que não era difícil aprender a receita, desde que se cozinhasse com amor. E, amor, falta você agora. Me pego rodopiando sozinha pela sala timidamente iluminada pela luz das velas. Fico girando até perder a noção do tempo, dos sentidos e das lembranças, que tanto machucam. Desabo num sono infinito, acompanhado de soluços intermináveis. E tudo o que eu desejo agora é acordar do seu lado amanhã e perceber que tudo não passou de um pesadelo.

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