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Aquilo que ela queria ser.

Houve um tempo em que cigarro, livros e café eram sinônimo de intelectualidade. E ela queria ser clichê. Queria fumar e beber, ser culta, escritora. Queria tomar álcool, mas nem água ela tomava direito. Queria ser culta, mas só lia romances vazios e desinteressantes, desses que qualquer adolescente costuma ler só para sonhar. E ela não era mais adolescente. Já tinha passado dos 25 e ainda sonhava. Sonhava em ser escritora, mas mal redigiu cartas; poemas, não sabia rimar. Queria ser independente, mas não arrumava a prória bagunça - da cama, da rotina, das ideias. Ela queria viajar pelo mundo, mas o máximo que conseguia era viajar na própria imaginação. Viajava até demais, a ponto de confundir fantasia com realidade. Quis ser médica ou enfermeira, porque era fascinada pelos cuidados da saúde e do corpo humano. Sequer cuidava da própria saúde, mal residia no próprio corpo; duvidava se tinha uma mente sã. Falava de amor mais que qualquer romancista, porque queria amar, dizia ela. E amava, menos a si mesma. Coleciona amores não correspondidos. Amores vãos. Queria ser modelo e emagreceu por não saber o que queria, afinal. Esvaziou de fome e encheu-se de incertezas. Ela, que queria ser tudo, acabou se tornando um nada. Nem médica. Nem enfermeira. Nem modelo. Nem escritora. Ignorou os amores que os moços lhe ofereciam, porque não era aquele amor que ela queria, e o que ela queria acabou não sendo. Sonhos vãos. Ficou assim, sozinha. Querendo ser. Chegou aos trinta e decidiu: desisto; viver não é pra mim.

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