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Anos depois.

Esperava-lhe com um copo de café expresso nas mãos. Organizava os cômodos da casa, certificando-se que todos os ambientes estavam perfumados e que nem uma flor tinha murchado com o excesso da ansiedade dela. Aguardava por esse momento havia uma eternidade de dias. Dias nem sempre tão claros. Noites quase sempre em claro, mas sempre escuras demais. Dias, noites. Sentou-se na poltrona reservada a ele. Observou a fumaça que saía do café, em cima da mesa de centro. No centro, um vaso com flores artificiais. A fumaça subia, subia, até desaparecer gradualmente. Mal podia ver até onde ia o fim dela. Sentia-se assim em relação a ele. Não ela, mas o que sentia por ele. Depois de tanto tempo, aquilo que ela sentia com tanta intensidade, agora mais parecia uma fumacinha, uma faísca que a gente sopra, sopra e abana para tentar reacender o fogo. Mínimo que seja. Mas era forte, assim como o café. O café quente que logo ficaria frio. Ele nunca aparecera para dar um oi. Ela, vez em quando, deixava escapar eu te amo. Era ingênua. E gostava. Gostava de dizer e de ouvir, embora nunca tivesse escutado a reciprocidade da frase. Frase? Daquela declaração simbólica e pequena, que de tão pequena, acabou não se concretizando, mas ela esperava. 

Esperava dia-após-dia pelo dia em que ele viria, dia que poderia ser esse agora, por que não? Ele apareceria com flores nas mãos, ou apenas apareceria , e então ficariam abraçados por uma infinidade de minutos, tão mais longos quanto esse tempo que ela passou esperando. E então teriam certeza de que ali, naquele lugar em que os braços dele envolviam o corpo dela e ela se aconchegaria no calor do corpo dele, aquele lugar, ali na sala perfumada, com o café frio e as flores murchas, não as artificiais em cima da mesa, nem as que ele traria, mas as flores que, assim como ela, ansiavam por aquele momento, aquele lugar haveria de ser o lugar que nunca mais deixariam. E ela voltou a observar as flores artificiais num vaso de verdade, e àquela altura o café já havia esfriado por completo, e percebeu que o que sentia por ele mais parecia aquela flor de mentira num vaso de verdade. Há muito tempo acreditou numa relação artificial, que ela regava com sentimentos de verdade e nunca florescia, porque afinal não existia. Mas ela gostava das flores, porque de algum modo coloriam aquele ambiente sempre tão vazio, e ela andava sempre tão vazia também, que regava aquela relação com alguém que nunca chegava, porque de algum modo ela achava que mais cedo ou mais tarde apareceria. 

E já estava ficando tarde demais. O tempo passava, as horas também e o cheiro do perfume que ela espalhou pela casa passava assim como o tempo, o cheiro e a fumaça do café. E ele não chegava. Nem mandava um oi. Nem dizia que a amava. Mas ela continuava esperando por ele, fosse sozinha, fosse com outros, mas continuava esperando e recusando outros amores, porque acreditava que uma hora ele viria. E acostumou-se a esperar e a ficar só. E a preparar café todas as tardes para eles dois. E a regar as flores na janela da cozinha para exalar pela casa quando ele viesse. Ou para que ela pudesse continuar sonhando com aquela relação que nunca aconteceria, com alguém que ela nem sabia se viria, nem ao menos sabia quem era, como era, mas ela sonhava. E sentou-se na poltrona da sala reservada a ele. Fazia calor lá fora. Mas a espera dela acabou esfriando.

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