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Fuga

Resolvi fugir hoje. Não fui tão longe, confesso. Sequer saí das proximidades do apartamento. "Apartamento", penso. E sorrio. Eu só preciso de um quintal, com árvores e grama aparada. Havia uma cadeira branca e desocupada na borda da piscina. Já era noite. Não fossem as três almas mergulhando e provocando um barulho pouco além do que eu já não precisava ouvir, seria o cenário tranquilizador perfeito. Saí com um vestido florido, que por pouco - muito pouco - não cobria por inteiro os meus pés descalços.

Cenário perfeito seria no Largo, com suas construções magníficas. Poderia ficar sentada ali por horas, pensando em tudo e em nada. Imagino-me sentada num daqueles bancos da praça, enquanto tantos outros corpos caminham, e passam, e me olham e não me enxergam. Sou só mais uma entre eles. Mas tudo bem. Mal os vejo também. Não bate vento nem no Largo nem na borda da piscina. Aos poucos, iam se retirando. As águas, recém-tratadas, ficaram pacíficas. Meus pensamentos? Longe, como sempre.

Coloquei o vestido por volta das quatro da tarde. Passei batom vermelho e um delineador na parte superior da pálpebra. Passo maquiagem para disfarçar a dor. Aos poucos o batom foi se apagando - já era noite, afinal. Os olhos ficaram borrados, aumentando minhas sutis olheiras. Os pés ficaram empoeirados, enquanto caminhava na rua, a esmo. De repente chegou mais gente. Muita gente. A maioria era criança, quase adolescentes. E como falavam! E como gritavam! Por pouco não fiquei arrependida por ter saído. Primeiro, porque não encontrei o sossego que precisava. Segundo, porque tinha quase certeza que minha mãe discursaria mais um de seus cansativos e intermináveis e incompreensíveis sermões. Mães! Adolescentes!

É que ficar sozinha é bom. Seria ótimo se deixassem de perguntar sempre "o que foi?". É tanta falta. Muita bagunça dentro da cabeça da gente. Fugir para a área da piscina nem se compara à distância que eu realmente gostaria de ir. Seria necessário um avião. Não sei para onde e nem para que. Talvez eu saiba, mas é tolice. As crianças pré-adolescentes barulhentas multiplicavam-se. Permaneci por mais alguns minutos na cadeira branca, na borda da piscina.. Decidi colocar os fones de ouvido e peguei um avião. Fui e voltei para onde eu quis. Até a música e meu tempo acabarem. 

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