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Carta impossível

Você sabe que escrever cartas nunca foi -nem nunca será- minha praia. Durante todo esse tempo em que estivemos juntos, lembro-me de ter escrito apenas uma carta pra ti. Não sei o motivo pelo qual tô te escrevendo essa outra, mas eu senti uma necessidade grande de esclarecer algumas coisas. Antes de mais nada, saiba que não quero te comover com nenhuma palavra que vou escrever aqui. A tua decisão já foi tomada, embora tenha sido -na minha opinião- precipitada. Perdoe-me meus erros de português.

Eu nunca fui romântico e isso nem deveria ser banal, mas você insiste em querer ler para mim esses poeminhas ridículos. Eu detesto teus vícios tecnológicos e sempre fiz questão de deixar isso bem claro, mas você insiste em querer me mostrar compartilhamento de fulano ou ciclano no Facebook. Eu não gosto das músicas que tu costumas ouvir e muito menos da tua tentativa de cantar músicas em Inglês, assim como você não gosta que eu ouça forró no último volume dentro do carro. Mas eu ouço e te aguento, você me aguenta. Eu nunca fui próximo demais dos teus amigos e todos eles sabem disso. Não que eu me sinta melhor do que alguém, mas nem com meus próprios amigos eu costumo ser atencioso. Diferente de você: sempre tão simpática, sorridente e bem-humorada, principalmente com os meus amigos.

Você sabe que sou orgulhoso e confesso que isso é péssimo, mas não posso evitar. Não gosto de ser contrariado e não sou do tipo que 'puxa saco' de alguém para conseguir algo em troca. Eu consigo me virar sozinho, mesmo que eu precise de muitas pessoas. Você consegue suportar pacientemente minha impaciência e eu sempre te admirei por isso. Você sabe que futebol pra mim é sagrado, então porque essa insistência em querer conversar durante o jogo, caramba?

Eu chego cansado do trabalho e nem sempre vou te dar a atenção que você merece, embora minha vontade seja de te encher de beijos, te abraçar bem forte e dizer que você é a mulher da minha vida. Eu acabo dormindo. Eu detesto ser acordado e você vem acariciar minha cabeça no melhor do sono. Acordo estressado, irritado. Sou estressado e vivo irritado. Sou de poucas palavras e todos já perceberam. Mas ninguém entende. Você costumava me entender. Costumava...

Agora eu vejo que você se cansou de ser paciente e meu orgulho te deixa ir embora. Sentirei tua falta, mas não espere que eu vá demonstrar isso. Não to te pedindo para voltar, porque eu sei que você está sendo feliz. Mas... eu sinto sua falta. Da tua risada, da tua TPM, da tua comida absurdamente ruim -minha nossa, como você cozinha mal! Quando vejo o número dessas outras mulheres na agenda do celular, lembro que foi por causa delas que você foi embora. Eu te falei que não era nada, mas você não acreditou. Eu dei motivos para isso. E agora só teu número me importa. Mas eu não ligo e acabo sozinho.

Tô escrevendo essa carta para te falar o que eu nunca disse antes. Tô escrevendo para conversar por papel tudo o que nunca conversamos pessoalmente; to provando do meu próprio veneno. Acho que ainda vou ser uma pessoa grossa e estúpida por bastante tempo, porque não dá para fingir ser o que eu não sou. A diferença é que a partir de agora eu não vou ter mais você comigo pra me acalmar de vez em quando. Desculpa perder a aliança naquela viagem, foi uma tragédia [mais uma vez você deu ouvidos à sua mãe e ela me odeia!]. Desculpa nunca te mandar flores, mas agora tô mandando essa carta. Embora seja tarde demais, eu não poderia deixar de dizer, nem que seja pela última vez: eu te amo!

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