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Eu não sou seu tipo

Eu não sou o tipo de garota que você procura. Eu sou morena, sou baixinha e uso um óculos detonado. Você gosta de loiras. Eu já tive uma experiência com lentes de contato, para que o óculos não ofuscasse essa cor clara dos meus olhos, mas não deu muito certo. É, eu tenho os olhos os claros, mas sou cega. Eu tenho preguiça de depilar as pernas e quando faço, você nunca repara. Eu tenho o vício de roer as unhas e dificilmente pinto as unhas dos pés, mas eu adoro o meu sapato vermelho de salto altíssimo, o que me deixa mais mulherzinha e me faz ficar um tanto poderosa. Eu não gosto de forró, mas te acompanho nessas festas sempre lotadas, com pessoas suadas e bêbadas. Eu também fico bêbada de vez em quando, porque eu descobri que beber de vez em quando até que pode ser divertido. A gente chega até dançar! Mas você não gosta do jeito como eu danço. Isso não me faz gostar de forró e muito menos do seu hip-hop ofensivo, que nem mesmo você sabe a tradução. As músicas que eu gosto são ridícu...

Censura

Está proibida qualquer forma de exibição do seu nome ou do seu rosto na minha vida e qualquer manifesto que mostre o quanto você exerce um poder involuntário sobre minhas decisões. Está expressamente proibido qualquer som que emita seu nome ou qualquer foto que me faça abrir um sorriso involuntário relacionado a você. Embora você me faça rir, sua existência provoca um mal à minha saúde emocional. Ver você passar me causa alergia e dor. Te ouvir sorrindo me causa alucinações sonoras à noite. Ainda não inventaram o remédio que me cure de você, é por isso que estou te proibindo, ou me proibindo de você, não sei. Qualquer pessoa que violar essa regra imposta pela minha cabeça doentia, estará sujeita à multa. Você se aproveita da minha ingenuidade para se camuflar de melhor amigo, faz propaganda de você mesmo e eu acabo abrindo uma ressalva. Eu volto atrás e torno a censurar o numero do seu telefone na minha agenda e sua música preferida tocando inesperadamente no rádio. Eu sou uma audiên...

A esperada declaração inesperada

Depois de abrir a caixa de e-mail e se deparar com a notícia que estava contratada para ingressar no emprego que esperava por quase dois anos, ela mal se conteve de tanta alegria. Contou a novidade aos amigos mais próximos e logo decidiu dar uma festa de despedida. Organizou cada detalhe, selecionando convidados e planejando o que comprar para beber, e, então, montou os convites e distribuiu no dia seguinte na faculdade, aos amigos da mesma rua e aos amigos da escola passada. - Eu tô nervosa. - Vai logo e entrega esse convite pra ele. - E se ele não for? - Claro que vai! Vocês são amigos, são colegas de classe. - (suspiro) Tá bom. - Age com naturalidade, como se estivesse convidando qualquer pessoa. - Esse é o problema: ele não é qualquer pessoa. - Tá, mas ele não sabe disso. - Me espera aqui. Se aproximou de mais um dos vários grupos que haviam na sala de aula dela, mas desta vez ele estava sozinho. - Oi. - Oi! (breve sorriso) - Ó, esse fim de semana tô organizando u...

Meu próximo namorado

Eu ainda não encontrei você. Mas quando eu encontrar, você vai ser o garoto mais bem humorado que eu já conheci. Você irá me acordar de manhã com o barulho da música tocando alto no aparelho de som, no último volume. E você vai me acordar para que a gente dê uma caminhada no parque, quando o dia ainda estiver amanhecendo. Quando eu acordá-lo, seja muito cedo ou muito tarde, ele vai continuar com o mesmo sorriso incentivador de todos os dias. Eu e você vamos brincar na cozinha, e você não vai se irritar caso eu não queira preparar  nada muito complexo para o almoço, ainda que sua fome exija um banquete. Eu vou receber um torpedo seu ao menos uma vez por dia; você vai me ligar - dia sim, dia não - para saber como estou e se meu dia está muito cansativo. Ele vai fazer um jardim no nosso terraço e levará um buquê de flores pra mim no dia em que eu tiver nosso primeiro filho. Você, meu futuro namorado, gosta de programas simples e alternados - e a gente vai se dar bem por causa diss...

Certas coisas nunca mudam

Eu já tinha desistido de esperar por você. Eu não olhava mais o celular esperando por mensagens suas e estava decidida a dar um rumo diferente para o caos que você deixou minha vida. E eu estava bem, juro. Te ver passando não fazia diferença e saber que outra pessoa tinha 'tomado' o meu lugar no assento do seu carro e do seu braço não me deixava triste. Eu conheci outras pessoas, me diverti com outros casos, outras fotos e até foras. Bebia moderadamente, mas o suficiente pra ficar bem 'felizinha'. É, eu realmente tinha superado qualquer coisa em relação a você. Eis que você me aparece no começo da tarde, sem aquele sorriso no rosto. Eu ajo naturalmente e finjo não perceber. A verdade é que, se meu olhar cruzar com o teu é fatal. Continuei evitando. Até que você me chama e pede pra conversar. E então percebi que certas coisas nunca mudam, ainda que você queira se livrar delas. Você continua com o mesmo corte de cabelo, a mesma sandália e as mesmas camisetas. Seu perfum...

A alma que queria companhia

Ela passeava toda a tarde no jardim, porque as flores eram as únicas que gostavam de ouvi-la. Seu choro regava cada pétala. O toque de suas mãos acariciava cada espinho e ela já não sentia mais dor. A moça do cabelo longo, castanho-claro, sempre amarrado em coque por causa do calor excessivo, acendia uns dois ou três cigarros e observava o sol se pondo na cidade de pedras. Ela sentia falta da fazenda de beira de estrada, onde o riacho corria transparente por detrás da colina. Na cidade, o pôr-do-Sol nunca fora tão cinza. O nascer do Sol sim, era mágico. Ela escrevia sobre seus amores, todos falhos, estampados em porta-retratos na escrivaninha da sala, nunca concretos. Ouvia jazz e blues com um pouco de café, sentada na poltrona que ficava perto da janela. A poltrona perto da janela. Seu lugar preferido naquela casa tão grande, tão vazia, com cômodos ainda inutilizados. A poltrona de couro marrom, aconchegante, onde sempre pegava no sono, quase sempre às onze-e-pouco da noite. Seu q...

A Ju, o Beto e a chuva.

Era manhã de uma segunda-feira qualquer. Tinha tudo para ser a mesma monotonia de sempre, mas o dia por si só já havia começado diferente: ao contrário do calor habitual e o Sol escaldante de todos os dias, nuvens escuras tomavam posse do céu; logo uma tempestade cairia. O vento soprava sereno e um friozinho gostoso pairava pelo pequeno apartamento. Não fosse a energia, que foi embora assim que a chuva se fez presente, tudo estaria perfeito. O computador anunciava bateria fraca, então ela o conectou ao no-break  para aproveitar o restante de bateria ouvindo música. Coldplay. Agridoce. Adele. Jack Johnson. Enquanto a playlist reproduzia aleatoriamente uma a uma das músicas, ela pegou um bloco de papel e uma caneta, sentou-se próximo à janela e observou a chuva que escorria pela vidro e banhava as árvores na calçada do prédio. De repente, alguém bate à porta. Não tinha energia, logo a campainha não funcionava. E ela ainda não havia mandando instalar o tal do interfone. Perguntou...